Eu tinha uns oito anos e minha mãe me levou para ver meu pai, na oficina mecânica dele. Não gostava de ir lá. Além de achar meu pai meio chato, a oficina era bastante suja, com um monte de geladeiras empilhadas, empoeiradas, sujas de graxa e tinha uns posters clássicos de mulheres nuas na parede. Não, eu não gostava daquele lugar e passar por ele foi o meu tormento até os 20 anos de idade.
Numa dessas vezes, meu pai deu uma das poucas orientações na vida. Mas ele deu uma das mais perturbadoras. Meu pai é um homem negro, sem traços de mistura. Nariz largo como a maioria de nós. Assim, ainda garota, ele sugeriu que todas as manhãs eu fosse até o espelho e apertasse as narinas, para não ficar igual a ele. Não, eu não achava o nariz do meu pai bonito (até porque ele ficou meio bagunçado por um acidente numa partida de futebol). Assim, a ideia de ficar com a cara igual a dele não me agradava nem um pouco.
Todas as manhãs, ia para o único espelho existente na minha casa e apertava, apertava, apertava o nariz, pedindo para que ele ficasse um pouco mais estreito. Só um pouco. Ritual que se repetiu até os 13, 14 anos. Obviamente sem grandes sucessos - que bom.
Não, na minha casa e na minha infância não havia nenhum fiapo de orgulho ou consciência racial. Ninguém se afirmava negro. Mas tinha um discurso geral de quem escapa de branco, preto é. A palavra escapa me trazia certo incômodo: por que escapa? Cedo aprendi que meu cabelo era ruim. Aprendi que as meninas brancas (ou que pareciam brancas) eram bonitas e eu poderia ser no máximo inteligente (título que me dediquei a manter e me dedico cotidianamente. Aprendi que tinha que dar ferro nos cabelos, ainda que queimassem meu coro cabeludo e que seria casar com alguém branco para limpar a barriga.
Na adolescência todos os meninos negros da sala atormentavam o menino negro de tez mais escura, chamado "cores neutras". Os avermelhados e achocolatados não se reconheciam nele e ficavam bem à vontade para deixa-lo sempre à margem. Eu estranhava tudo aquilo, porque não via diferença entre eles, entre mim. Mas era covarde o suficiente para permanecer calada.
Eu sabia quem eu era, de onde vinha, mas sentia que não podia falar. Nem tinha estímulo. Na primeira vez que com 20 anos falei, "eu sou negra" fui questionada. Era óbvio que eu não era. Que eu era morena, parda, sarara, qualquer coisa parecida com isso. E eu me achava frágil e fraca de mais para ser negra. Mas passei a insistir. E a insistir, até que deixaram de negar, até que eu perdi a vergonha. Até que aceitei e passei a cultivar alegria, orgulho. E agora sinto que não poderia ser outra coisa e essas dificuldades fazem parte de mim. E agradeço pelo caminho não ter sido fácil.
Para além das minhas sentimentalidades e poesia ruim. Um lugar de compartilhamento de percepções, em prosa clara – em tentativa. Crônicas e comentários sobre esse meu lugar de fala de mulher negra, feminista, artista, cínica e aguda. Quero fazer aqui pontuações sobre observações extraídas do cotidiano. Com ou sem poesia. Mas nada impede, que em paralelo, a Mônica sentimentalista, que escreve sobre seu umbigo dolorido, se manifeste na lírica. Convivemos todas.
terça-feira, 20 de novembro de 2012
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
De Esperança
Antes de mim mesma, corro para ver minhas plantas. Tornei-me uma moça dedicada a cuidar de uma pequena horta, bem como de um conjunto de vegetais intrusos, que brotaram na minha terra e como sou vira-lata, gosto do inusitado. As plantas intrusas dão pequenas flores e quando chega a noite, ficam alvoraçadas, exalam perfume. Vou deixando que elas fiquem...elas me causam surpresa.
A certeza da minha vitória como plantadora de hortaliças se deu quando o pé de alface vingou - despeito de olhos que achavam que minha horta era toda de equívocos. Ele vingou e posso dizer - só e o comi - que suas folhas são as mais saborosas que já provei. De um verde forte, o sabor amargo, forte forte. O alface é a minha conquista nova: cuidadora.
Antes do meu desjejum, visito minha horta e meio boba, desejo-lhes bom dia. Cato alguma sobra de borra de café e distribuo por entre as terras. Vejo se alguém comeu ovos, quebro a casca e faço a distribuição. O fato foi que a rúcula gostou disso e garantiu folhas bem saborosas. Contudo, uma parte dela parece sofrer de alguma praga...meio esbranquiçada...sei pouco o que fazer. Provei da rúcula...mas sem o mesmo entusiasmo que o alface - a rúcula quer algo de mim, mas não sei o que.
Tentativas frustradas de plantar manjericão. O manjericão é o meu fracasso. Já comprei sementes, já adquiri mudas de amigas, já fiz tentativas de deixa-lo na água, para ver se vinga...nada deu muito certo. Será minha energia meio bagunçada e faz murchar o manjericão? Será que ele quer mais sol? Será que ele quer menos sol? Qual é o problema que o manjericão não resiste a minha presença?
Os tomates são uma promessa: todos os dias eles prometem que virão...mas ainda não vieram. As plantas são garbosas e as maiores da horta...cada dia mais altas e intrincadas...Talvez precise dar suporte para que possam verticalizar-se...no dia que der o primeiro tomate...nem sei...serei mãe boba...chamarei os amigos. Darei uma festa.
Hoje plantei mais sementes de alface, rúcula e calêndula. Também já tenho brotos de coentro e pimenta: mais promessas. Entendo agora porque verde é esperança, é esse carinho nutrido na fé de que virá algo. E quando vem...você sorri e se alimenta. Gosto de ser essa moça que planta suas esperanças e as prova com azeite doce. Ainda sob críticas, cultivo o inesperado...essa semente de sálvia que deu outra coisa...que até hoje não sei quem é...mas só sei que é bonita e procura os céus.
Quem diria que um dia eu gostaria tanto de plantas...
A certeza da minha vitória como plantadora de hortaliças se deu quando o pé de alface vingou - despeito de olhos que achavam que minha horta era toda de equívocos. Ele vingou e posso dizer - só e o comi - que suas folhas são as mais saborosas que já provei. De um verde forte, o sabor amargo, forte forte. O alface é a minha conquista nova: cuidadora.
Antes do meu desjejum, visito minha horta e meio boba, desejo-lhes bom dia. Cato alguma sobra de borra de café e distribuo por entre as terras. Vejo se alguém comeu ovos, quebro a casca e faço a distribuição. O fato foi que a rúcula gostou disso e garantiu folhas bem saborosas. Contudo, uma parte dela parece sofrer de alguma praga...meio esbranquiçada...sei pouco o que fazer. Provei da rúcula...mas sem o mesmo entusiasmo que o alface - a rúcula quer algo de mim, mas não sei o que.
Tentativas frustradas de plantar manjericão. O manjericão é o meu fracasso. Já comprei sementes, já adquiri mudas de amigas, já fiz tentativas de deixa-lo na água, para ver se vinga...nada deu muito certo. Será minha energia meio bagunçada e faz murchar o manjericão? Será que ele quer mais sol? Será que ele quer menos sol? Qual é o problema que o manjericão não resiste a minha presença?
Os tomates são uma promessa: todos os dias eles prometem que virão...mas ainda não vieram. As plantas são garbosas e as maiores da horta...cada dia mais altas e intrincadas...Talvez precise dar suporte para que possam verticalizar-se...no dia que der o primeiro tomate...nem sei...serei mãe boba...chamarei os amigos. Darei uma festa.
Hoje plantei mais sementes de alface, rúcula e calêndula. Também já tenho brotos de coentro e pimenta: mais promessas. Entendo agora porque verde é esperança, é esse carinho nutrido na fé de que virá algo. E quando vem...você sorri e se alimenta. Gosto de ser essa moça que planta suas esperanças e as prova com azeite doce. Ainda sob críticas, cultivo o inesperado...essa semente de sálvia que deu outra coisa...que até hoje não sei quem é...mas só sei que é bonita e procura os céus.
Quem diria que um dia eu gostaria tanto de plantas...
domingo, 28 de outubro de 2012
Borboletas e Peixes
Contei do sonho: as borboletas decidiam deixar de ser borboletas e resguardar-se no mundo dos peixes. Lá mais tranquilas, longe das arbitrariedades do mundo - das mãos curiosas das crianças, da crueldade tosca dos caçadores, das matas sem folhagens. Elas resolviam ser peixes. E deixar pro fundo do mar o mundo do se movimento e colorido.
Mas me indago: por que eu sonho que as borboletas não querem mais ser borboletas e fogem da opressão virando peixes? Sou eu borboleta? Sou eu peixe (fortes indícios).
Mas me indago: por que eu sonho que as borboletas não querem mais ser borboletas e fogem da opressão virando peixes? Sou eu borboleta? Sou eu peixe (fortes indícios).
Dessemelhante
Cansada das palavras. Inabilidosa com ela para imprimir pensamentos/sentimentos, com a mínima impessoalidade que torna um texto interessante, eis que volto a desenhar. Não habilidosa ainda. Mas pelo menos, expressando - e nutrindo alegria pelo fato de simplesmente criar.
E eu?
Ás vezes quando escuto, na verdade, indago-me: "e disso tudo, e eu?". E eu que não fiz, que não pude, que não consegui, que até tentei, tentei, quis muito. Mas não deu...por mais desejo, sonho, palavras soltas na porta do guarda-roupas para mentalizar de manhã. Não deu...talvez não dê mesmo. Daí dou um sorriso. Confirmo minha escuta com a cabeça. Mas comigo não...ainda não foi possível. E as horas passam. Os anos também. Já é a metade do segundo tempo. A juventude se esvai. E o verde da esperança se esmaece. E eu:? Não sou a presunçosa egoísta. Mas e de tudo, é preciso haver um "e eu?". Eu sou a moça que tem em si a interrogação cravada no peito e que entulho caixas vazias para solapar a ausência.
...
Na vida repetiu-se o movimento daquela tarde. Era setembro, dia de aniversário de minha prima mais próxima e mais querida. Adorava minha prima, mas tinha uma coisa. Sabia que minha avó achava minha prima bonita e eu não. E isso me entristecia, queria também ser fofa. Mas não era...ou tudo levava a crer que não. Era 1984. Minha tia chegara contente com um disco de "Balão Mágico": Simony, Jairzinho, Mike e sei lá mais quem. Era o presente de minha prima. E do alto dos meus cinco anos, veio a pergunta: E eu? Eu não ganharia o disco do Balão Mágico? Eu não ouviria só para mim aquelas músicas. Então, me contentei em rir e dizer "que legal". E sei lá porque...essa cena é uma constante. Eu ainda espero o disco, o amor, a surpresa de uma palavra macia, me sentir a escolhida, o filho, a viagem para um país encantador, o salário justo pelo meu trabalho, o reconhecimento profissional, estar no topo da carreira. Eu ainda não.
...
Na vida repetiu-se o movimento daquela tarde. Era setembro, dia de aniversário de minha prima mais próxima e mais querida. Adorava minha prima, mas tinha uma coisa. Sabia que minha avó achava minha prima bonita e eu não. E isso me entristecia, queria também ser fofa. Mas não era...ou tudo levava a crer que não. Era 1984. Minha tia chegara contente com um disco de "Balão Mágico": Simony, Jairzinho, Mike e sei lá mais quem. Era o presente de minha prima. E do alto dos meus cinco anos, veio a pergunta: E eu? Eu não ganharia o disco do Balão Mágico? Eu não ouviria só para mim aquelas músicas. Então, me contentei em rir e dizer "que legal". E sei lá porque...essa cena é uma constante. Eu ainda espero o disco, o amor, a surpresa de uma palavra macia, me sentir a escolhida, o filho, a viagem para um país encantador, o salário justo pelo meu trabalho, o reconhecimento profissional, estar no topo da carreira. Eu ainda não.
sábado, 29 de setembro de 2012
Latência
Dias que no meio de uma gargalhada, a tristeza latente aponta e diz, "estou aqui e vou me deitar
Vou pousar sobre seus olhos e dormir dentro de sua boca.
Me encolher entre seus dedos e fazer de seu peito minha morada tranquila"
A tristeza se enroscou entre meus pés, embaraçou os fios dos meus cabelos.
Sentada olho o céu depois da chuva. Tomo meu café sem cafeína.
Rezo um terço para distrair a mente e esperar que eu me esqueça que sou uma moça profundamente triste.
Embora consiga acessar a alegria, quando ela me visita.
Vou pousar sobre seus olhos e dormir dentro de sua boca.
Me encolher entre seus dedos e fazer de seu peito minha morada tranquila"
A tristeza se enroscou entre meus pés, embaraçou os fios dos meus cabelos.
Sentada olho o céu depois da chuva. Tomo meu café sem cafeína.
Rezo um terço para distrair a mente e esperar que eu me esqueça que sou uma moça profundamente triste.
Embora consiga acessar a alegria, quando ela me visita.
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