sábado, 14 de fevereiro de 2015

Descarnaval

Junto ao confete solidão dói
Serpentinas serpenteiam milágrimas
Da batucada a canção destrói
Fantasias de samba amor e rimas
Sorrisos gargalham alto no vazio

Norte-Sul


A linha do Equador nos partiu
O mundo, a fome, o corpo
Ao norte, o pensamento
Ao sul, o corpo instinto

A linha do Equador nos feriu
lágrima sangue anticorpo
Resfria do o sentimento
Atormentado e faminto

Nas mãos da fé, mente ruiu
Doente ao Norte mudo corpo
Fragmentados sem quadris

Amordaçados senis
Religiões anticorpo
Anti-humano ardil

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

[poemas] Haikais Negros

Oxum teu espelho
Mostra o que não vejo
S'ouro escondido


***

Meu cabelo não nega, nego
Mulata ou suas negas, nego
Negra Soul

Créditos: Priscila Fulô

[poemas] Haicais vagabundos

Humanizo-me
quando me deixo afetar
pela a-fé-tividade


***

Desdenho o desejo
Desejaria querer o que posso?
Mas não é o desejo

[poemas] Soneto para Oxum

Oxum e os seus. Riscado: Mônica Santana


Esses três moços: Exu, Oxossi, Ogum
O mensageiro, caçador, guerreiro
Perderam-se no espelho dela
escorreram no mel d'ouro d'yabá

Xangô pousou seu martelo de rei
apagou fogueira, deixou esposa
Deu anel, pulseira, raio, trovão
escorregou nas águas d'yalodê

Orumilá entregou seus mistérios
Charmosa, a moça lhe toma posto
Adivinha os segredos d'Ifá

Vence os falos floretes com sorriso
Derruba reis com gozo gemido
Oxum, rainha, todos deu a si.


terça-feira, 27 de janeiro de 2015

[poemas] Lápis Pelourinho

Meu lápis ficou escravo
Da presença deste homem
Cujo rosto em verso gravo
Cujo corpo rogo: amém!

Meu lápis é um cativo
De minhas memórias líquidas
Dos lampejos de sua beleza
Dos ruídos que ainda cultivo

De solidão, lápis gemeu
De lembrança, lápis riu
De gozo, lápis chorou

Ausência tornou-lhe mudo
Versos fracos, brancos, surdos

Palavras do amor liberto

Cenas da Mestiçagem

Pintura de Caribé, um dos criadores da representação da mulata nas artes visuais do século XX

Cena  1
Praia. Um menino negro brinca com uma menina branca, de cabelos loiros e olhos claros. A família negra sentada na cadeira, aprecia a cena.
Pai afirma com orgulho: - Meu filho é  retado mesmo. Ói lá ele brincando com a loirinha. Repare como a loirinha tá louca por ele. Esse menino é danadinho! Conquistou a loirinha.
A mãe e os tios comemoram e concordam o feito do garoto.

Cena 2
Uma mulher negra assiste ao noticiário. Ela não é uma mulher negra de tez mais escura, o que leva a ter algumas confusões sobre qual é sua raça.
Um cantor famoso da década de 90 aparece na TV e sua trajetória com as drogas é relatada no programa, sua luta sem sucesso para superar o vício.
Diante da imagem da celebridade decadente, um homem negro, ela conclui:
- Negro, quando não caga na entrada, caga na saída.

Cena  3
Numa seleção de modelos, uma profissional foi preterida. Negra de tez mais clara, ela não foi escolhida por não ser o suficientemente preta. Ela se sentiu discriminada. A autora, que vos fala também uma vez,  perdi um trabalho por não ser escura o bastante. O fato foi que lamentei pelo cachê perdido, mas sei que negras do meu tom de pele estão mais frequentemente nas publicidades (nas poucas que temos), nos filmes e telenovelas. Negras mais escuras não estão representadas em lugar nenhum. Não são mulatas o suficiente - e a mídia brasileira só suporta lidar com mulatas - seja lá o que isso for.