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domingo, 29 de dezembro de 2013

Banho de Rosas

Peguei duas rosas vermelhas, despertarei na água fervente. Coloquei cravo, canela, essência de ylang-ylang. Fechei os olhos e pedi o despertar de uma energia que vi poucas vezes na vida. De uma moça sorridente que já soube ser. Banhei o corpo, a fronte. Pedi que as energias bonitas de vida e terra voltassem para meus pés. E desde então, deparo com a morte de tudo aqui que pedi. Tudo morrera há tanto e tanto tempo, que dias passados do banho, dos pedidos de fé, reconheço que meu pedido é impossível. Há tantas mulheres mortas dentro do meu peito, abortos não expelidos nesse útero inutilizado, que não há vida possível em mim. Estou morta e não há rosa vermelha que me devolva o viço. 

sábado, 24 de agosto de 2013

Observando o amor

Há valor quando se vê uma pessoa na outra. O amor assimilado em forma de contágio. Em forma de lei, que se compactua, consente, confirma, dispensando o dever da gratidão. Valioso ver a validade do amor enquanto afecção, mesmo quando falta zelo - fruto da extrema ignorância. Que o amor possa ser boa influência. Possa mover poesia. E fazer cartões postais.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Da presença do que falta

Com a agenda atribulada, reconheço: luto contra as ausências. Luto contra a falta do que sentir. O que fazer excede aos braços. Mas onde repousar minhas horas vagas, carecendo de devaneio, não há regaço. As ausências se adormecem na lista de tarefas, silentes. A ausência me consola, pois já nao lembro daquilo que poderia ser presença. A ausência nina meu sono. Ms coloca paRa sonhar, mas nem no sonho confio, pois sei que debaixo de qualquer meneio de estar, há a adversativa que nega e faz perene a falta. E a ausência vira pedra e me ancora no fundo do mar, peixe denso de águas profundas.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Descerá de uma estrela brilhante

Por detrás do turbilhão do dia, das páginas, das laudas, das palavras, do silêncio, do algodões sujos de maquiagem, do colesterol alto - haverá amor? Haverá amor de amante antes que a vida se rompa e leve seu último sopro. Apesar dos atentados na Líbia, dos incêndios higienistas em São Paulo, da eleição de escroques à prefeitura dessa e de uma centena de outras cidades brasileiras, os olhos lacrimejam todas as noites, ante a luz incandescente da luminária: haverá amor? Haverá amor no peito de verdade? Haverá amor e haverá verdade? Haverá sentido para estarmos irremediavelmente sós, mesmo estando juntos. Irremediavelmente sós - mas em busca daquele outro. Que virá? Como um índio - foram mortos. Todos. Ou quase todos. Sobraram raros. Que virá como os filhos de Ganghy, que trocam colares por beijo - transmitem saliva, doença, vazio. Que virá como Dionisio - incendeie meu peito, mas não queime meus dedos. Virá algum amor - que tem que existir. Como o verde. Como o que sobra de esperança, que emerge entre a borra de café, no projeto de tomateiro, que cultivo, com amor - dou me amor imenso aos tomateiros. Todas as manhãs: entrego-lhe devota: sou mulher cheia de amor, te entrego tomate. Você que é vermelho e não me diz não. Não, ao lado dele, não cresce manjericão. Mas é verde. Cultivo. Com a esperança. Haverá.