Para além das minhas sentimentalidades e poesia ruim. Um lugar de compartilhamento de percepções, em prosa clara – em tentativa. Crônicas e comentários sobre esse meu lugar de fala de mulher negra, feminista, artista, cínica e aguda. Quero fazer aqui pontuações sobre observações extraídas do cotidiano. Com ou sem poesia. Mas nada impede, que em paralelo, a Mônica sentimentalista, que escreve sobre seu umbigo dolorido, se manifeste na lírica. Convivemos todas.
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domingo, 7 de setembro de 2014
Flor das horas presentes
Há dias à flor da pele sem saber ao certo. Porque, por vezes, a pele em flor não é espinho, rusga, rasgo. À flor da pele pode ser também percepção das coisas, dos aromas, do vento frio, das texturas quentes, da audição que se aguça. Ando à flor da pele, puro riso. Noto as rachaduras na perna, percebo os engasgos, mas tudo é de atenção - o presente é nestas horas. Estou nele, cheirando a verbena e rosa. Com hálito de chocolate e desejando o mundo. Logo os jasmins florescem nas janelas e o futuro não se faz susto. Porque das poucas vezes na vida, estou no presente.
domingo, 25 de maio de 2014
Despertamento
E coberta por suores d'outrem, alguém desperta. E reconhece: sou. Toda carne que se treme por debaixo deles é. Unidos: mente, corpo, alma e aquilo que se afirma gênero. E ri da subserviência que traveste no ambiente do quarto. Ri grata pelo despertar das últimas manhãs: algumas horas mais tarde, sob o vento e o sol fervente das 11 horas.
A cor dava vida revolvida líquida. E grata, desperta, sorria contente: fora pessimista, mas ainda era macia e nada abandonará. Nada nada, tudo estava ali. Esperando apenas a coragem de ser mais que mente. Corpo risonho na potência de seus orifícios. Ser mais que mente: ser corpo em gargalhada, cabeça para trás, trêmulo na alegria de se saber colorido. A cor dei.
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
Misoginia que nos une
Embora todos, todos nasçam do nosso ventre, há em cantos do mundo, aqueles que não dirijam sua palavra a mulheres. Há os que acham nosso rosto imoral, cobrindo com véus, impedindo a mobilidade do nossos corpos com longos vestidos fechados e pesados. Há os que extirpam a capacidade das nossas vaginas sentirem prazer, mutilam e maculam para sempre nossos corpos. Há os que condenam nossos cabelos. Há ainda os que violam nossos corpos, transformando-nos em objetos. Do lado de cá há os que pensam que somos atrativo para vender cerveja e decorar cenário de programa humorístico. Há os que não nos querem amamentando em público, se nossos seios não forem como as das modelos da revista masculina. O medo tremendo que sentem de nós, imputa-lhes ódio. Ódio tremendo e nos ferem de toda forma, tolhem a liberdade de todo o jeito. E há os que perguntam por que lutar por direito? Não já foi tudo feito?
Em algumas tribos de países africanos em guerra, o estupro tornou-se um dado banal. Agravado pelo fato de que a mulher violada é considerada como amaldiçoada - não pode conviver na vila. Assim, a mulher não recebe assistência para seus ferimentos, tão pouco apoio e piedade frente à violência a que foi submetida. É deixada num canto, para que morra sozinha. E claro...essa morte não é rápida...é lenta...paciente. A mulher vai morrendo aos poucos, de fome, das complicações pelos ferimentos que não foram curados.
A vila assiste tudo ao longe e não permite que ninguém se aproxime, nem lhe socorra.
Na Bahia, há continentes de distância, duas jovens foram violadas por um grupo misógeno de pagode. As jovens da brutalidade a que foram submetidas, foram execradas pela mídia e pela opinião pública, que as rotulou com nomes dos mais lastimáveis. De vítimas, como de costume, foram transformadas em algoz dos dez homens que as estupraram: a mulher deseja ser violada, ferida, rasgada, humilhada - é o raciocínio recorrente da humanidade. Os dez homens que feriram as moças foram motivo de manifestação de apoio: elas tiveram o que mereceram. Felizmente, a justiça parece ser um pouco mais sã e mantem os criminosos enjaulados. Mas as jovens mulheres ainda não tiveram devolvida sua liberdade, sua dignidade - diante da humilhação pública e da falta de solidariedade da sociedade e mídia, estão reclusas.
A diferença entre a população que ri e dança pagode em festa da Bahia, não se difere muito da tribo africana, que deixa as suas vítimas morrerem à míngua.
E os homens querem ser anjo. Oprimem suas mulheres - que não são suas - em nome de Jesus, do profeta, do demônio ou o que o valha. Mas os anjos devem ser piores que os animais. Nenhum gato, leão, porco, cobra pratica canibalismo ou tem o hábito de exterminar quem lhes deu a vida. Se a linguagem nos torna diferente dos animais, a razão não nos tornou melhores.
sábado, 22 de setembro de 2012
Linhagem
Quero - ainda que por agora seja intelectualmente - fazer do meu corpo o manifesto da história dos vários povos que se juntaram para compor minha linhagem. Pelo menos até onde sei. Da índia avó de minha avó pega no mato. Do avô de minha avô que veio da Itália ganhar dinheiro por aqui. Dos nagôs todos que construíram as bases dessa terra. Do meu cabelo cheio cor de fibra do dendê. Do quadril largo de boa parideira que talvez eu possa ser. Da pele preta desbotada pelas misturas. Do nariz grande que meu pai mandava apertar todas as manhãs para eu afilar - mas ele foi mais resistente, não se deixou dobrar. No corpo estão gravadas as marcas de tanta gente, de invasão, exílio, diáspora, migração, mistura. Não quero perder de vista minha linhagem para ser o que não posso. Que o corpo seja a história, a sabedoria. Não mais a castração travestida de beleza.
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