Para além das minhas sentimentalidades e poesia ruim. Um lugar de compartilhamento de percepções, em prosa clara – em tentativa. Crônicas e comentários sobre esse meu lugar de fala de mulher negra, feminista, artista, cínica e aguda. Quero fazer aqui pontuações sobre observações extraídas do cotidiano. Com ou sem poesia. Mas nada impede, que em paralelo, a Mônica sentimentalista, que escreve sobre seu umbigo dolorido, se manifeste na lírica. Convivemos todas.
domingo, 27 de abril de 2014
As alegriazinhas
Queria escrever coisinhas delicadas, as quais as pessoas se identificassem. Provocar respiro, suspiro, boa esperança. Mas fracasso nessas tarefas. Sou bem sucedida em transcrever as horas de tédio. Só dele quem sei.
Abandono
sábado, 11 de janeiro de 2014
Lembrete
Ontem lembrei também que sou uma moça triste. Profundamente triste. Que luta para caminhar mais firmemente e acreditar que tudo pode. Profundamente triste por nesse tanto tempo, ainda não ter encontrado alguma mão que lhe ajude a ter confiança. Não gostaria de ter lembrado dessa parte.
Há lados em que posso tanto. Outros em que consigo tão pouco. E tudo sou.
domingo, 29 de dezembro de 2013
Todos os olhos
No metrô, distraio-me dos olhos do senhor que me examina atentamente. Incansavelmente o senhor me observa. Distraio-me de distrair-me e curiosa observo pelos espelhos frente. Ele quase aproxima seu rosto do meu. Olha mãos, braços, rosto, sapatos. Toda aquela inquirição me afronta.
Novamente me distraio para não ser afetada. "Sou turista. Devo ser uma pessoa leve." Outra estação, moço de barba bonita, óculos de Fellini. Tanto me observa que senta ao meu lado. O cheiro forte de álcool às 15:00 no Centro da cidade rompe com qualquer possibilidade de desejo. E percebo a inoportuna observação dele sob as lentes dos óculos escuros.
Repasso na mente o que visto: camiseta branca, bermuda jeans até o joelho, sapato preto branco. "Definitivamente não estou irresistível". O que há de espantoso em mim?
Já diante das portas de saída, uma mulher me assiste e balbucia palavras. Encara meus sapatos e pronuncia algo que tento ler.
Respiro aliviada. Meus sapatos são realmente bonitos.
Banho de Rosas
domingo, 22 de dezembro de 2013
O garoto
E ele continuou a tossir, cada vez mais próximo. E olhei pra ele mais fixamente, deixei que ele caminhasse ao meu lado.
"Que foi, tia? Tá com medo?"
"Não, tô vendo você tossindo demais. Tá tudo bem?"
"Tá sim. A senhora tá com medo?"
"Não. Se estivesse tinha andado correndo e tô aqui do seu lado. Por que você está sozinho a essa hora? Onde você mora?"
"Moro nessa mata aí da frente. Tô indo dar a volta para subir"
"Nessa mata? É mesmo?"
"É sim. Outro dia um homem tentou me estuprar. Eu empurrei ele, pedi para me deixar em paz. Você quer dormir lá comigo? Para eu não ficar só"
Até agora, não sei o que responder. Não sei, não sei, não sei. Não pude e ainda não posso dizer nada consistente àquela criança.
"Eu...eu tenho que ir para minha casa"
"Tá bom. Tudo bem".
"Olhe, tome isso aqui. Você quer?"
"Quero sim"
"Você aguenta levar?"
"Levo sim. É doce de uma festa? Festa de aniversário"
"É um pão salgado. De uma festa sim"
Não nos despedimos. Ele seguiu carregando a caixa e a bandeja. Ainda sinto como se um trem tivesse passado por mim. Por cima. Não sei se era verdade. Se o garoto fora violado por um adulto estúpido. Se ele vive sozinho naquela mata, guardado pela própria sorte. Não sei... mas se era sua imaginação de criança, ainda assim, era uma imaginação muito nutrida por coisas trágicas. Por imagens de dor grandes para uma criança imaginar simplesmente.
Digam-me. O que se faz.