domingo, 29 de dezembro de 2013

Banho de Rosas

Peguei duas rosas vermelhas, despertarei na água fervente. Coloquei cravo, canela, essência de ylang-ylang. Fechei os olhos e pedi o despertar de uma energia que vi poucas vezes na vida. De uma moça sorridente que já soube ser. Banhei o corpo, a fronte. Pedi que as energias bonitas de vida e terra voltassem para meus pés. E desde então, deparo com a morte de tudo aqui que pedi. Tudo morrera há tanto e tanto tempo, que dias passados do banho, dos pedidos de fé, reconheço que meu pedido é impossível. Há tantas mulheres mortas dentro do meu peito, abortos não expelidos nesse útero inutilizado, que não há vida possível em mim. Estou morta e não há rosa vermelha que me devolva o viço. 

domingo, 22 de dezembro de 2013

O garoto

Depois da festa, voltava risonha para casa. Pão cheio de recheio saboroso, enrolado em papel manteiga. Rua vazia, muito vazia. Assim como ficam as ruas em dezembro depois das 20h. Todos se guardam nas festas de família, confraternizações. Ou protegem-se temendo os ditos gatunos, que ficam à espreita de 13° salários mínimos displicentes, perdidos em carteiras. Ao ouvir uma tosse longa atrás de mim, temi que fosse alguém assim, que estivesse em meu encalço. Não era um homem, era um garoto de poucos anos, no máximo 9 anos. Carregava uma dessas caixas de Natal, onde imaginei haver donativos. Ele tossia muito. Tranquilizei-me ao ver um criança. Mas preocupei-me por pensar que era tarde, ele estava sozinho.
E ele continuou a tossir, cada vez mais próximo. E olhei pra ele mais fixamente, deixei que ele caminhasse ao meu lado.
"Que foi, tia? Tá com medo?"
"Não, tô vendo você tossindo demais. Tá tudo bem?"
"Tá sim. A senhora tá com medo?"
"Não. Se estivesse tinha andado correndo e tô aqui do seu lado. Por que você está sozinho a essa hora? Onde você mora?"
"Moro nessa mata aí da frente. Tô indo dar a volta para subir"
"Nessa mata? É mesmo?"
"É sim. Outro dia um homem tentou me estuprar. Eu empurrei ele, pedi para me deixar em paz. Você quer dormir lá comigo? Para eu não ficar só"
Até agora, não sei o que responder. Não sei, não sei, não sei. Não pude e ainda não posso dizer nada consistente àquela criança.
"Eu...eu tenho que ir para minha casa"
"Tá bom. Tudo bem".
"Olhe, tome isso aqui. Você quer?"
"Quero sim"
"Você aguenta levar?"
"Levo sim. É doce de uma festa? Festa de aniversário"
"É um pão salgado. De uma festa sim"
Não nos despedimos. Ele seguiu carregando a caixa e a bandeja. Ainda sinto como se um trem tivesse passado por mim. Por cima. Não sei se era verdade. Se o garoto fora violado por um adulto estúpido. Se ele vive sozinho naquela mata, guardado pela própria sorte. Não sei... mas se era sua imaginação de criança, ainda assim, era uma imaginação muito nutrida por coisas trágicas. Por imagens de dor grandes para uma criança imaginar simplesmente.
Digam-me. O que se faz.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

11/12/13

Acordo de um sono pesado. Precisei de Dramin para dormir sem interrupções. Perdi a natação. Perdi o horário. Não pude levantar. O peso do corpo era por demais grande. Fiz ligações de trabalho ainda deitada. Mandei emails ainda deitada. A cabeça frenética. O corpo imóvel. Antes de levantar, nas redes sociais a foto da mulher branca e suas servas escuras sob a chuva. Outra foto de um homem negro, machucado, despido e acorrentado numa cadeira. Roubara um frasco de desinfetante. Imagens do século XIX, que parece não ter fim na terra brasilis. 
Trabalho e reconheço que sou desconfiada demais. E essa desconfiança retira minha possibilidade de leveza, atravanca os encontros que a vida poderia me trazer. O medo do machucado que impossibilita de se ter a potência da vida. 
E no meio da tarde, leio o desabafo de um rapaz que por segundos sobreviveu de ter sido imprensado por um ônibus. Porque o trânsito expressa a selva em que vivemos, a sordidez que faz com que uma máquina maior torne um homem mais poderoso do que outro. A sordidez que faz com que a pressa das máquinas seja mais valiosa do que o direito de ir e vir de pedrestes e ciclistas.
E todo esse dia me tornou um pouco oprimida. Embora nada nada tenha me ocorrido. A vida me seguiu boa. Mas estranho a estranheza disso que é ser humano. Esse mal latente, disfarçado. E reconheço no ônibus que não somos irmãos. Sem os laços do afeto...não somos. Talvez seja um erro. Talvez haja mais beleza nas relações - porque de fato há. Sou mais afagada do que repelida. Sou mais gentil que áspera. Rio mais que choro. 
Preciso manter alguma esperança nisso que se constitui a humanidade.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Minha disritmia

Uma alegria contente, quase ensurdecedora de tão estridente samba por cima do peito. 
Razão nenhuma. 
Apenas o deparar-se com o riso de alguém cujo meu riso gostou. 
E cair do dia de sol, sob som de metais, cordas e batuques, atiça a vontade de alterar as coisas. 
De que as coisas permaneçam impermanentes e que o movimento seja a única tônica
E os quereres que não cessem
E descompassadamente quero aquele do riso. 

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Para cultivar flores

Com minha mãe, aprendi a desenhar. Com a minha avó, aprendi a resignação diante daquilo que é maior. Com ela, aprendi ter fé. De novo com minha mãe, aprendi a rir alto. Com minha tia Regina, aprendi o que é ter cuidado. Com Francisco, aprendi a gostar de história. Com Renata, aprendi a guardar papéis de carta na pasta. Com Priscila, aprendi a brincar, mesmo velha. Com Emília e Iara, aprendi a compor músicas pop. Com Yoshimeri, aprendi o que era ter uma melhor amiga e como não tratar, uma melhor amiga. Aprendi com ela também a escrever cartas. Com meu pai, aprendi que se deve perdoar. Com minha tia Ruth, aprendi que há que se vigiar e orar sempre. Com Tia Célia, aprendi a fazer bolo e cuscuz. Com meu tio Ruy, aprendi que se cuida da família sempre. Com pró Aldenice aprendi a ler. Com Lisa, aprendi que mudar nunca é demais. Com Ana Fernanda, aprendi a admirar os astros. Com Raiça, aprendi poesia. Com Roberto, Edmundo, Jacyan, Cláudio, Kleber, Fábio, aprendi a gostar e querer estar no palco, com amor e respeito. Com Saulo, aprendi a leveza  e com Paula, aprendi que fazer nunca é demais. Com Cássia, aprendi o rigor. Com Ramona, Nilton, Luciana, Kleper, Maick, Giorgia, Gina, Vânia, Rebeca e pessoas, que injustamente pelo açoite da memória falha, aprendi a valorizar o tesouro da amizade e a variedade de cores que ela tem. Agradeço aos tantos que cruzam meu caminho, enriquecendo meus passos, tornando-os mais firmes. Agradeço a generosidade das trocas. Agradecer ainda é pouco. Mas faço dessa escrita, esse exercício de gratidão como cultivo de flores, como cultivo da graça da vida. Que sim, é deveras graciosa, esgueirando-se na tessitura dos encontros, provocando esbarrões e afetos. 

sábado, 24 de agosto de 2013

Observando o amor

Há valor quando se vê uma pessoa na outra. O amor assimilado em forma de contágio. Em forma de lei, que se compactua, consente, confirma, dispensando o dever da gratidão. Valioso ver a validade do amor enquanto afecção, mesmo quando falta zelo - fruto da extrema ignorância. Que o amor possa ser boa influência. Possa mover poesia. E fazer cartões postais.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Ainda é tarde, amor

Um reconhecimento trago ao ver o rosto no espelho e identificar o bigode chinês sobre os grossos lábios: não, não, não amadureci. Sou ranzinza, bastante reclamona e altamente atolemada. Mas não sou madura. Ainda choro no escuro, totalmente indignada com minha solidão. Ainda danço no espelho diante de uma roupa nova e suspiro ao ver Brad Pitt nas telas grandes. Não sou madura. Me divirto com competições inúteis por colocação em joguinhos. Ainda brinco de casinha no The Sims. Ainda sonho com uma vida que serei uma mulher bonita, bem sucedida e cobiçada, com uma linda filhinha correndo pela casa e um marido amoroso, lendo jornal no sofá. Ainda sonho com um moça econômica que não aprendi a ser. Ainda sonho com o que acho que já poderia ter superado sonhar. O tempo de tanto devaneio já passou e não cabe mais minhas aspirações de menina de 15 anos. São já 34... e ainda sou a mesma menina que escreve coisas no caderno. Ainda acendo velas porque tenho medo do escuro. Ainda...é tarde.