quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Espelho de Clarice

Olhando para ela eu me reconheço numa versão dilatada. Ela me diz que é imperioso retirar as muitas camadas de cal que travestem o esquecimento que me forjo. E espelhada em suas linhas reconheço a mulher inquieta, aguda, áspera, medrosa e excessivamente carente. Somos interrogação marcada à ferraduras nas solas dos pés. Sobre nosso ombro direito pesa o mundo, oprimindo a musculatura, inflamando a carne. A dor daquilo que não pudemos mudar e daqueles que não pudemos salvar nos causam cólicas uterinas lancinantes. E silenciosamente a alma grita e para não morrer, jorramos palavra. Eu na minha mediocridade, você, em seu tempo, na sua genial e cruel abundância. E o mundo é cruel e desesperadamente buscamos a alegria apesar de.

Apologia do Não Saber

Cansaço de ter que ser inteligente. De saber porquê e ter que explicar, argumentar, contra-argumentar, definir, conceituar, questionar, ponderar, negar. Vontade de só responder: não sei. Porque nem sempre sei porquê, e se sei, nem sempre quero dizer. Explicar a tudo fatiga...fatiga tanto. E realmente, duvido que saiba tanto assim.
Cansaço de ser consistente. De pessoas permanentemente consistentes e profundas, que arrotam conhecimento. Cansaço de Deleuze, Nietszche e das bandeiras contra metafísica. Quero o colo de Deus, sua confiança e seus afagos. Quero pensar que tem alguém cuidando de mim, me protegendo. Quero, quero, quero Deus. Essa solidão da liberdade no meio da opressão do que não posso mudar me constrange. E a metafísica me consola porque sou mística, porque nada me faz mais feliz que um banho de arruda e o cheiro do manjericão.
Cansada de comida saudável. De boa música. Do que é "bom". Cansada, cansada, cansada mesmo da moça de óculos que inventei e dessa lua fatigante em Virgem. De ser crítica, auto-crítica e permanentemente insatisfeita.

A seca

A crueza da seca finalmente atingiu meus olhos com sua contundência radical. O cinzento das pastagens, o rio que não flui, a poeira que engasga o ar, a pele que emudece seu próprio suor. O verde esmaecido luta para ser bandeira, mas não consegue e pede "piedade, piedade, azul do céu sem fim". E engrosso o coro dos cipós retorcidos: "chuva, mulher espirituosa, faz misericórdia, cai sobre nós, enxarca a terra e promete-nos abundância". Ela fecha seus ouvidos, se faz de surda e segue sangrando os pés.
Nada mais triste que a negação da chuva, da umidade, do fluxo. A negação do rio - que não corre, que se evapora. O tempo parado pela poeira que sufoca. A terra e os pés cortados. A lágrima que não cai. A sede silenciosa e seca.

Dos azuis e do que os olhos não vêem

Ao cruzar de volta os morros azuis, inevitáveis saudades: aquele lugar me aponta um espelho d'água tão nítido, cujo movimento me desperta e desponta. Se de dia converso com as plantas e flores, me perco entre as rosas e sempre-vivas, bebo do suco doce da manga e da nudez nas águas do rio, de noite entonteço ante a escuridão, que me revela estrelas que não conheço, lança luz sobre a moça triste e acabrunhada - que a todo modo, tento ignorar a existência. Diante das lagoas escuras, cujo fundo não enxergo, a força incógnita das águas que não me revelam o que guardam ao fundo. A completa ignorância em torno da vontade dos homens. E diante daquilo que desconheço, a paralisia e a melancolia do medo. Nesse lugar sou a que sou: sensível, frágil, temente da noite, do desconhecido. Sou gentil, gosto do dia, amante da beleza e curiosa do profundo. Imaginativa e receptiva, mas medrosa e assustada. Aceito a bruxa que vive sob meus olhos. Aceito a minha missão de a tudo sentir muito. Aceito que o céu indiscutivelmente azul e o  vermelho gritante da estrada me sussurre aos ouvidos que não há ilusões. E que já não é tempo de Maya.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Do tempo

E admiro o tempo. De repente ele pousa sobre minhas mãos, sem fugir célere. Simplesmente preparo o jantar, o almoço do dia seguinte. Respiro fundo. E ele ainda está nas minhas mãos. Desenho uma página. Desenho outra. Faço um verso. Ainda tenho ele nas minhas mãos. Não sei o que fazer com a sua presença, com a sua graça dizendo "você me tem agora". Acendo uma vela. Fico de ponta cabeça. Leio um livro. Leio outro livro. Escrevo. Converso. E ele está ali. Até abrir a gaveta e ver que a conta venceu, faz três horas. E o tempo passou. E eu não vi. E já não o tenho. Ele me seduziu e escapou por entre os dedos.

domingo, 2 de dezembro de 2012

As horas

Há o tempo as horas desajeitadas. De um vazio estranho e não se saber direito o que viver. Paro, pego uma xícara de chá e espero: as horas. Só sorvê-las. Movendo pouco. Quando as horas são puro açoite, puro algoz, é bom vê-las passando preguiçosas. Pensando o mínimo possível, respondendo apenas as demandas da sede, fome, suspiro. E nesses momentos aquilo que não é preenchido emerge, ora dói um pouco, ora não se faz sentir, só um sorriso. E pelo menos por algumas poucas horas permito a graça de nada fazer, nada querer, nada ser útil.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Nariz

Eu tinha uns oito anos e minha mãe me levou para ver meu pai, na oficina mecânica dele. Não gostava de ir lá. Além de achar meu pai meio chato, a oficina era bastante suja, com um monte de geladeiras empilhadas, empoeiradas, sujas de graxa e tinha uns posters clássicos de mulheres nuas na parede. Não, eu não gostava daquele lugar e passar por ele foi o meu tormento até os 20 anos de idade.
Numa dessas vezes, meu pai deu uma das poucas orientações na vida. Mas ele deu uma das mais perturbadoras. Meu pai é um homem negro, sem traços de mistura. Nariz largo como a maioria de nós. Assim, ainda garota, ele sugeriu que todas as manhãs eu fosse até o espelho e apertasse as narinas, para não ficar igual a ele. Não, eu não achava o nariz do meu pai bonito (até porque ele ficou meio bagunçado por um acidente numa partida de futebol). Assim, a ideia de ficar com a cara igual a dele não me agradava nem um pouco.
Todas as manhãs, ia para o único espelho existente na minha casa e apertava, apertava, apertava o nariz, pedindo para que ele ficasse um pouco mais estreito. Só um pouco. Ritual que se repetiu até os 13, 14 anos. Obviamente sem grandes sucessos - que bom.
Não, na minha casa e na minha infância não havia nenhum fiapo de orgulho ou consciência racial. Ninguém se afirmava negro. Mas tinha um discurso geral de quem escapa de branco, preto é. A palavra escapa me trazia certo incômodo: por que escapa? Cedo aprendi que meu cabelo era ruim. Aprendi que as meninas brancas (ou que pareciam brancas) eram bonitas e eu poderia ser no máximo inteligente (título que me dediquei a manter e me dedico cotidianamente. Aprendi que tinha que dar ferro nos cabelos, ainda que queimassem meu coro cabeludo e que seria casar com alguém branco para limpar a barriga.
Na adolescência todos os meninos negros da sala atormentavam o menino negro de tez mais escura, chamado "cores neutras". Os avermelhados e achocolatados não se reconheciam nele e ficavam bem à vontade para deixa-lo sempre à margem. Eu estranhava tudo aquilo, porque não via diferença entre eles, entre mim. Mas era covarde o suficiente para permanecer calada.
Eu sabia quem eu era, de onde vinha, mas sentia que não podia falar. Nem tinha estímulo. Na primeira vez que com 20 anos falei, "eu sou negra" fui questionada. Era óbvio que eu não era. Que eu era morena, parda,  sarara, qualquer coisa parecida com isso. E eu me achava frágil e fraca de mais para ser negra. Mas passei a insistir. E a insistir, até que deixaram de negar, até que eu perdi a vergonha. Até que aceitei e passei a cultivar alegria, orgulho. E agora sinto que não poderia ser outra coisa e essas dificuldades fazem parte de mim. E agradeço pelo caminho não ter sido fácil.