terça-feira, 16 de setembro de 2014

Amor de muitos

Pagas duas parcelas de credito da paixão de julho, posso dizer agora que o encanto acabou. Na medida em que aquele encontro virou dividas. Na medida em que o príncipe não era de palavra tão bem dada assim.  Pagas as parcelas da paixão de julho, em setembro brotam outras flores. Sou outra moca, tanto que nem mais reconheço direoto. agradeço ao amor de maio, junho, julho.

Todos eles deram semente para outra arvore nascer em mim. 

Ora pois, o amor se faz somando muitos. Encantos, desencantos, presentes dados, lagrimas e descobertas de tantos outros gozos.

domingo, 7 de setembro de 2014

Flor das horas presentes

Há dias à flor da pele sem saber ao certo. Porque, por vezes, a pele em flor não é espinho, rusga, rasgo. À flor da pele pode ser também percepção das coisas, dos aromas, do vento frio, das texturas quentes, da audição que se aguça. Ando à flor da pele, puro riso. Noto as rachaduras na perna, percebo os engasgos, mas tudo é de atenção - o presente é nestas horas. Estou nele, cheirando a verbena e rosa. Com hálito de chocolate e desejando o mundo. Logo os jasmins florescem nas janelas e o futuro não se faz susto. Porque das poucas vezes na vida, estou no presente.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Parágrafo Final

Tenho o dom de provocar fins. Mais um enuncia no fim da página. Já escrevo para lembrar: devo esquecê-lo. Das obrigações da vida: apagar mentalmente quem nos ignora previamente. Sou muito boa em ser ignorada. Crio situações para falar sozinha. Receber costas viradas. Portas batidas, palavras não ditas. Sou mestre em apegar-me a quem me presenteia com silêncios diante de minhas perguntas. Mais um fim construí. Agora apago mensagens, números, fotos trocadas, expectativas construídas. Desejo que esteja enganada, mas não me engano com fins. Esse chegou e já anoto na agenda: devo esquecê-lo. Não sou boa nisso, mas escrevendo dez vezes, cumprirei essa tarefa: gosto desse rapaz e devo esquecê-lo. Mais um fim se anuncia. E o telefone não vai tocar. Fim.

domingo, 13 de julho de 2014

Quando uma alma reconhece outra

Pensei que tinha endurecido. Mas não. Não endureci. Não fiquei amarga. Tenho umas marcas, uns medos paralisantes. Penso sempre que não vai dar, que não vai ser, que a pessoa não estará lá. Penso toda sorte de coisas sórdidas, alimentando de fato uma pouca crença. Mas você me apareceu como a esperança sorrindo: não deixei e acreditar em nada. Sou ainda sonhadora, romântica e boba. Diante do seu sorriso, ainda de menino, perco 20 anos e volto aos 15, quando eu já era descrente. 
E não sei. E as lágrimas são tantas, mas não é dor. É um contentamento que não se contenta em sorriso: por isso, choro. Não sabia que podia ainda me encantar. Não sabia que podia ser aquela moça que sorri de doçura. Você me devolveu esse direito de sentir as pernas tremulas. De dormir suspirando. De sonhar com coisas que me pareciam improváveis. 
E o futuro é só incerteza. Mas esse instante é tanta alegria. É tanto reconhecimento de uma alma paga outra... Enfim, enamorada. 

domingo, 22 de junho de 2014

Ponta de lança

Nem miraram lança em meu peito e já choro de soluçar as memórias da vida toda e seus cortes. Já soluço todos os nãos que fizeram o traçado de minhas mãos. Soluço de estremecer até embalar meu sono. Soluço até me cortar e efetivamente ter uma dor na carne. Até a ameaça da lança ser o suficiente para que tudo em meu rosto seja lágrima. 

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Lavadeiras ou do tempo que não passa

Assusta-me pensar o quão o tempo passou pouco nas bandas da terra onde nasci, assim como para as pessoas de tez mais escura que ergueram esse chão. O tempo parece estagnado e suspenso ainda nas horas barrocas - contradições explícitas e abundantes, retorcidas nos corpos e nos ares. 
Nas ladeiras, casas pequenas de antigos garimpeiros, homens endurecidos descem e sobem falando com algo que não se vê. Mulheres oram expulsando inimigos. Igrejas se espalham em cada esquina, sejam elas de cruzes, sejam elas de pastores.
Quase todos os que moram e pouco têm, pretos são. Quase todos que vêm de fora, conquistam mais, brancos são. Lei antiga que muda pouco. Já não brotam diamantes das pedras, alimentando sonhos de mudança, nem mais podem os homens garimpar em busca da riqueza e promessa de vida nova.
O tempo - mais veloz que folhas em queda, de mudanças mais bruscas que as trombas d'água, que quando em vez, alteram a ordem da natureza - parece não ter se alterado, pelo contrário, ainda em suspenso, instala-se nas trouxas de roupas que as negras mulheres carregam sobre a cabeça e equilibram na descida até o rio. E nas mãos lavam peça a peça, secando sobre as pedras.
Uma imagem entre poética e triste: ainda se sustenta família, lavando-se roupas no rio. E há que se suspirar, pois há famílias que pagam outrem para lavar suas próprias vestes, ainda não uma máquina.
O tempo segue estático tanto quanto as pedras ardósia. O tempo permanece, assim como a malemolência dos corpos das negras lavadeiras. Como a rigidez dos que já não garimpam e vivem de tempo. 

A louca

Algumas vezes faz-se necessário acalmar a louca interior. Fazer compressas e colocar sobre sua testa febril. Dar-lhe doses grossas de xarope. Segurar sua mão, enquanto tenta dormir. A louca quer sair. Ela treme de frio, enquanto ri e faz profecias, que ninguém deseja ouvir. Não há que se lutar contra a loucura: ela subjaz sob a pele, é expelida tal qual suor. A loucura é a única coisa que é. Pinguei óleo essencial me um copo d'água e fiz com que bebesse. Deixei que a louca chorasse um pouco as dores de nada que é, mas apenas do medo que fosse. Esperei que soluçasse e depois de mais água, a louca assentiu - não faço o menor sentido. Posso continuar a ser doce. E a não fazer sentido algum.