Para além das minhas sentimentalidades e poesia ruim. Um lugar de compartilhamento de percepções, em prosa clara – em tentativa. Crônicas e comentários sobre esse meu lugar de fala de mulher negra, feminista, artista, cínica e aguda. Quero fazer aqui pontuações sobre observações extraídas do cotidiano. Com ou sem poesia. Mas nada impede, que em paralelo, a Mônica sentimentalista, que escreve sobre seu umbigo dolorido, se manifeste na lírica. Convivemos todas.
domingo, 2 de junho de 2013
Sem título
Todas as noites sonho a encenação da vida que me escapa: beijo rostos que se esvaem qual vapor de chaleira. Toco mãos que não são. E no soluço desperto do abraço. E a lágrima entende que não há criança alguma em meu colo. Desperta, acostumo com a realidade que se alimenta de sonhos abortados pelo tempo. A solidão é a mais presente companhia desde os tempos das bonecas. A solidão gosta mais de mim que nenhuma outra pessoa. E sinto que por mais que encene todas as noites adentro companhias, nas manhãs invariavelmente, é ela quem me dá bom dia.
Libertando a ausência
Há quase um semestre ausente da escrita. Não da escrita do trabalho, não da escrita do estudo. Mas da escrita que me liberta do que me torna mecânica. Da escrita que devolve a vida tirada pelo livro de ponto, pelo cumprimento do horário e das pautas. Andei meio morta, vivendo as obrigações que me cabem. Pouco criativa e pouco sentida. O poder esvaindo entre os dedos, na medida que não olho para os passos que dou. E nessa vida que esvai pela falta da pulsação do escrever bobo nessa página desartizada, apenas comprometida com a tarefa de dizer coisas cujo sentido me escapa.
E diante da folha em branco, penso que não vou escrever: mas a pura liberdade de poder dizer sem quando, onde, porquê, quem, nem pra quê, obrigam-me a exaltação. A liberdade é minha feliz condenação. E impus-me o silêncio, em detrimento da liberdade, coisa que tanto prezo. Liberto-me assim da ausência. Convoco a prosa, a poesia sem rima, as linhas tortas. Convoco a vontade de libertar todos os gritos e assumo que a vida está no verbo e que ele se faça tenra carne. Amém.
E diante da folha em branco, penso que não vou escrever: mas a pura liberdade de poder dizer sem quando, onde, porquê, quem, nem pra quê, obrigam-me a exaltação. A liberdade é minha feliz condenação. E impus-me o silêncio, em detrimento da liberdade, coisa que tanto prezo. Liberto-me assim da ausência. Convoco a prosa, a poesia sem rima, as linhas tortas. Convoco a vontade de libertar todos os gritos e assumo que a vida está no verbo e que ele se faça tenra carne. Amém.
quarta-feira, 30 de janeiro de 2013
Da presença do que falta
Com a agenda atribulada, reconheço: luto contra as ausências. Luto contra a falta do que sentir. O que fazer excede aos braços. Mas onde repousar minhas horas vagas, carecendo de devaneio, não há regaço. As ausências se adormecem na lista de tarefas, silentes. A ausência me consola, pois já nao lembro daquilo que poderia ser presença. A ausência nina meu sono. Ms coloca paRa sonhar, mas nem no sonho confio, pois sei que debaixo de qualquer meneio de estar, há a adversativa que nega e faz perene a falta. E a ausência vira pedra e me ancora no fundo do mar, peixe denso de águas profundas.
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
Meninos da minha rua
Storyline I
Menina cresce. Padrasto nota e deseja. Rua fala. Ela engravida. Eles se
amam. A mãe silencia, finge que não vê e em pleno século XX, morre de tuberculose. Ele também. A filha cuida dos filhos dele com sua mãe, dele com ela.
Storyline II
O menino mais bonito da rua foi o primeiro a ser pai. Negro azeviche,
emprenhou menina branca. Ficou forte, puxou ferro. Ficou menos bonito deformado
para ser segurança. O menino mais bonito da rua se engraçava com todas. Morreu na
Ladeira da Praça, jogando dominó numa madrugada de dia comum. Mataram. Não se sabe porquê. Sua mãe não foi
mais a mesma, embora tivesse seis filhos, já não podia fazer outro tão bonito como aquele.
Storyline III
Pai deixou o filho com a amante. A amante criou o filho como
se fosse seu. Jorge era perverso. Batia nos bichos, nas crianças, desrespeitava
as idosas. No ar, a promessa: esse menino tem instinto ruim. Antes dos 20, Jorge
morreu. O instinto ruim virou crack, fez roubar senhoras, levou-lhe para cadeia,
consumiu sua vida, antes de virar homem.
Storyline IV
No número 1 só moravam velhinhas. Dona Nedi, Dona Maria,
Dona Alzira, mãe de Jorge (o que morreu cedo). Dona Nedi morava no último
andar, namorava um mecânico mais jovem, que lhe dava alegrias no horário do
meio dia. Colocava as caixas de som na janela, vendia refrigerantes e cervejas
que passava pela cesta. Dona Maria espichava cabelos a ferro e rezava doentes,
vivia só e parecia uma índia. Dona Alzira era gorda, tinha um pastor alemão, um
amante policial e cuidava do enteado que lhe fora confiado e que a
vida/natureza(?) estragou.
domingo, 20 de janeiro de 2013
Longo diálogo mental (III)
Não sei lidar bem com a passagem do tempo. Sei que estou melhor agora do que há dez anos atrás. Mas o tempo me açoita dia e noite. O tempo me diz que ele já está acabando e que preciso ser rápida se quiser ainda fazer o que não fiz. E não fiz muita coisa. Não porque eu sou preguiçosa, burra ou incapaz. Mas porque o que é fácil para um, é um monte intransponível de dificuldades para o outro. É fácil para muitas ter cinco amantes simultâneos. Para mim, é mais fácil trabalhar em três assuntos diferentes e escrever uma dissertação ao mesmo tempo. O amor para mim é uma dificuldade e seus trâmites são um mistério. A paquera é algo que não compreendo e não sei fazer. O tempo passou e não fui alfabetizada no vocabulário afetivo e enfim, temo que não possa viver aquilo que qualquer garota de 13 anos viveu. Ainda não sei nadar, não escalei montanhas, não fui amada e não sei andar de bicicleta. Sou fútil, carente, falo besteiras e tenho mais vestidos que eventos para ir. Nunca fui à Europa, nem pari a menina que sempre quis ter. Temo o tempo, as celulites, a esclerose múltipla. Temo a solidão que conheço bem - porque sempre sonhei, pelo menos por uma estação inteira ter companhia e receber flores. Quero tanta coisa e me esforço para fazer, para resolver. Tentei nadar, mas ainda preciso de uma mão carinhosa segurando a minha. Tenho 34 anos e não queria, não sem ter nunca sido esperada por alguém, nem sem ter vivido o verão que eu sempre ouvi falar e não tenho ideia como viver. Sou ainda uma menina que sonha ouvindo musicas românticas nas FMs. Mas o tempo me diz que já sou uma mulher madura, de meia idade e que a juventude já está indo embora. E eu não queria ter mais medo. Nem queria não saber como é doce o amor.
Longo Diálogo Mental (II)
A alegria é uma potência de mudança. É uma possibilidade de trampolim, apesar de todas as dores e irrefutável crueldade da vida. A alegria é revolucionária. Mas a alegria não pode ser desculpa para superficialidade. Não pode ser miopia, nem indisposição para ver o mundo. A alegria não pode ser uma ditadura. Não quero encomendar sorrisos engarrafados. Nem fazer da gargalhada a única máscara viável do meu rosto. Quero todas as nervuras e expressões que minha face pode ganhar. Quero o direito ao humor, mas também ao mal humor, a melancolia que me visita quando em vez. Quero o direito a todas as cores: a estridência do amarelo, a austeridade do roxo. Quero o direito a ser várias: alegre, boba, triste, entediada, entusiasmada. Duvido muito de quem tem só uma expressão e distribui lições de vida, comportamento e felicidade por minutos. E então, amigos e amigas, não me engarrafem, nem me leiam como se eu fosse uma coisa só ou precisasse dessa lição de alegria magnifica que você tem a dar. Por favor, poupem-me de me sentir um frasco de tinta, quando posso ser a palheta Pantone.
Longo diálogo mental (I)
I
Sim, Salvador está num período de profunda decadência. Não sei se está, ou sempre esteve. Estamos há quatro séculos de decadência, desde que o açúcar deixou de ser fonte de riqueza de toda região nordeste. Desde que deixamos de ser capital do Brasil. E se o baiano deixasse de se comparar com o carioca, ou achar que deveríamos ser como São Paulo, veria que quase todas as capitais do Nordeste e Norte são igualmente decadentes. Que a noite de todas as capitais brasileiras é bem menos movimentada que a nossa. Que as pessoas usinam em postes de forma indiscriminada. E que o trânsito é um horror. Eu sei, Salvador está difícil, pra mim também e dizer que a Bahia é linda não resolve nada. Mas também dizer por minuto que Salvador fechou resolve menos ainda. O mundo é uma grande província, com exceção das grandes capitais dos países, especialmente os da Europa que se tornaram bem grandes graças a exploração de continentes inteiros. Assim, poupem-me de comparar Salvador com qualquer capital européia - fomos colônia espoliada, roubada, nao explorador. Não fomos nós os divisores do roubo, mas o roubado. Poupem-me de ouvir que Porto Alegre tem gente bonita e até o gari é gato, em comparação a essa, que é a cidade mais negra fora da África. Se você que reclama por minuto não tem um projeto de mudança e de amor a essa cidade, faça um favor a você e a mim: a Itacimirim tem na rodoviária ônibus saindo de hora em hora para o Sul Maravilha e apesar da alta das passagens aéreas, o cartão Gol parcela bilhetes em 36 vezes. Quem ficar aqui, nessa terra, no Nordeste, terceiro mundo sim, mas lugar de resistência e força que seja para lutar, pra fazer diferença. Reclamar, mas operar mudanças no raio onde atua.
Sim, Salvador está num período de profunda decadência. Não sei se está, ou sempre esteve. Estamos há quatro séculos de decadência, desde que o açúcar deixou de ser fonte de riqueza de toda região nordeste. Desde que deixamos de ser capital do Brasil. E se o baiano deixasse de se comparar com o carioca, ou achar que deveríamos ser como São Paulo, veria que quase todas as capitais do Nordeste e Norte são igualmente decadentes. Que a noite de todas as capitais brasileiras é bem menos movimentada que a nossa. Que as pessoas usinam em postes de forma indiscriminada. E que o trânsito é um horror. Eu sei, Salvador está difícil, pra mim também e dizer que a Bahia é linda não resolve nada. Mas também dizer por minuto que Salvador fechou resolve menos ainda. O mundo é uma grande província, com exceção das grandes capitais dos países, especialmente os da Europa que se tornaram bem grandes graças a exploração de continentes inteiros. Assim, poupem-me de comparar Salvador com qualquer capital européia - fomos colônia espoliada, roubada, nao explorador. Não fomos nós os divisores do roubo, mas o roubado. Poupem-me de ouvir que Porto Alegre tem gente bonita e até o gari é gato, em comparação a essa, que é a cidade mais negra fora da África. Se você que reclama por minuto não tem um projeto de mudança e de amor a essa cidade, faça um favor a você e a mim: a Itacimirim tem na rodoviária ônibus saindo de hora em hora para o Sul Maravilha e apesar da alta das passagens aéreas, o cartão Gol parcela bilhetes em 36 vezes. Quem ficar aqui, nessa terra, no Nordeste, terceiro mundo sim, mas lugar de resistência e força que seja para lutar, pra fazer diferença. Reclamar, mas operar mudanças no raio onde atua.
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